ASA DE GENTE

Abri a cancela do mundo, Oh ganga! Pra ver o gado passar,

Não via uma cabeça de gado, oh ganga! Só o seu maracá,

Eram negros, índios e caboclos, oh ganga! Que passavam por lá!

 

Como boiada berrando, oh ganga! Fazendo barulho por lá!

 

Traziam instrumentos de luta, oh ganga! E o seu caçuá.

Para a labuta diária, oh ganga! De almas ir pescar!

 

Vieram ao mundo vestidos E paramentados de penas e cores

a boa nova anunciar:

 

Que a vida continua e que ninguém morre ou vive sozinho.

Simplesmente vira passarinho tendo o céu todo pra voar

Em grandes bandos e revoadas que é pra não se cansar.

 

Quando voamos sozinhos nos cansamos rapidinho

Ou somos apanhados e arapucas pelo cansaço do caminho

E muitas vezes outros bichos destroem nosso ninho

Por estarmos cansados e sempre sozinhos.

 

Abri a cancela do mundo, Oh ganga! Pra ver os pássaros voar,

Não via uma asa de pássaro, oh ganga! Só o seu maracá,

Era toda espécie de gente, oh ganga! Que voavam por lá!

 

Formavam uma nuvem de luzes, oh ganga! Na penumbra do lugar.

Iluminando as trevas, oh ganga! Daquele triste lugar.

 

Não eram pássaros que voavam, eram homens e mulheres.

Que um dia foram cativos do corpo

E agora são libertos da alma

PORQUE SOUBERAM AMAR!

 

Abri a cancela do mundo, Oh ganga! Pra ver essa gente passar…

 

Por Roberto Penides

ANGOLÊ

Angolê! Angolê! Chorava o branco na senzala

Com suas lágrimas copiosas

De tristeza, ódio e revolta.

 

Angolê! Angolê! Suplicava o branco odiento

Com o sangue negro em suas mãos…

 

Angolê! Angolê!

Uma súplica em vão

Para o corpo inanimado no chão.

 

Nas trevas da noite enterrado em cova rasa

Pelas mãos de quem amou e serviu,

Mas que o preconceito não deixou aflorar

O amor naquele coração seco e branco.

 

Angolê! Angolê!

Sorria ao ver seu corpo no chão

E ao reencontrar a sua mãe preta

Estendendo-lhe a mão.

 

Angolê! Angolê!

Iluminou-se de luzes astrais,

Dissipando as trevas do seu coração preto.

 

Agora Angolê é orisá, é luz e razão.

Num terreiro de um branco Babalawô,

Que chora a tristeza de uma solidão indecifrável

Que em seu peito sufoca em lágrimas pesarosas

De um passado esquecido de uma senzala sua.

 

Angolê! Angolê!

Grita agora o branco desditoso

Socorre-me em minhas aflições,

Para que eu possa continuar a guiar estes filhos

Neste terreiro de loas.

 

Angolê! Angolê!

É uma brisa refrescante na vida

A consolar e amparar seu amor da antiga senzala.

 

Angolê! Angolê!

O branco odiento ainda verte lágrimas por ti,

E não sabe o porquê de tanto sofrer.

É como se sua mente buscasse o amor perdido,

Sentido, verdadeiro e único que teve em toda a sua vida.

 

Como senhor de escravos não podia dar-se ao desfrute

De amar uma negra, mas podia dar-se ao desfrute de possui-la

Quando bem quisesse, mas naquela noite Angolê foi mãe

E morreu nos braços do seu amado e famigerado branco odiento.

 

Que hoje canta loas aos orisás num terreiro jejê, nagô ou xambá

E que tem por rainha Angolê  a senhora do cruzeiro e encruzilhadas.

 

Laroyê! Monjibá! Minha senhora Angolê!

 

Angolê! Angolê! Meus olhos ainda choram por ti…

Por Roberto Penides

A GARGALHADA

Em plena meia noite, andava eu em rua escura,
Quando passei pela encruzilhada
Escutei uma gargalhada e no ombro me tocaram.

E me disse assim: – não olhe para trás agora.
E como a adivinhar meus pensamentos
A mesma voz me disse: – não é tua perdição,
Mas segue a diante e a esquerda mudando de direção,
Pois se isto não fizer aí sim será o fim do teu caminho.

Segui o indicado e grande luz se fez na encruzilhada seguinte
Homens e mulheres festejavam e alguns me abraçaram
Aí o “companheiro” que segurava em meu ombro me disse:
– Agora sim pode olhar para trás.

Dois homens armados corriam que nem meninos desesperados.
Senti grande alivio e outra vez a gargalhada ouvi.
Obrigado amigo pela ajuda e ele disse-me: – por nada!

Qual seu nome ele me disse apenas: – Tiriri!!!!! Quá! Quá! Quá!
Gargalhando sumiu com toda gente e eu segui meu caminho,
Ecoando em minha mente o som de sua gargalhada.

Por Roberto Penides

BRASIL

Ó pátria do evangelho,
Ó coração do planeta!

Tu és a terra prometida,
Onde todas as nações do planeta
Virão ao teu seio buscar
Consolo e boas energias:

Tu hoje já te encontras
Entre as nações mais pacíficas
E amigas de todo o planeta:

Elas serão as tuas companheiras!

Não te calas Terra do Cruzeiro:
O teu amor deverá abraçar
Todos os povos e nações,

A tua ciência maior
Será a paciência
E a tua força e âncora
A caridade.

Unamo-nos

Habitantes da terra prometida,
Ainda há tempo, ainda há lugar
Para fazer com que cada coração
Se volte as grandes lições de amor.

E eis que um dia a luz
Desceu de seus lugares mais sublimes,
Para abraçar e despertar

Nas almas dos habitantes

Deste planeta:
A fraternidade, a paciência,
A indulgência, a caridade

E o amor nas almas endurecidas
E teimosas dos terrícolas
E esta luz, ou melhor, este ser
Foi considerado o salvador desta humanidade,

Por isso não tenham medo
E sim amor,

Não se preocupem em serem anjos:
Preocupem-se em fazer
Com que o coração de cada um
Reluza e transmita a todos os habitantes

Deste planeta:

O amor e a resignação
Daquele a quem a humanidade
Chamou de salvador,

E, só assim a pátria do evangelho
Não será apenas no Brasil,
Mas no coração de cada criatura
Que habita o planeta Terra!

Por Roberto Penides

Oração aos grandes ancestrais divinos

Rege-me com tua justiça Xangô,

Que tua machada corte a mentira,

Que a tua balança pese meu coração

E veja se sou digno da misericórdia de Oxalá.

 

Que a espada de Ogum me abra caminhos

E a flecha de Oxóssi atinja o alvo do meu coração

E me torne pacífico para com todas as perseguições que sou alvo.

 

Exú dai-me tua sustentação para que meus pés não vacilem

E nem caia eu nas armadilhas feitas pelos meus perseguidores e caluniadores.

Oh! Pombo Gira dê-me sensibilidade e habilidade para não ser pego

Pelo feitiço da cobiça e a sensualidade das vantagens inescrupulosas.

 

Banha-me nas águas salgadas de minhas lágrimas

Ó Iemanjá, quando eu for digno de tuas bênçãos maternais.

Cobre-me com o dourado do teu sorriso Oxum

Para que quando eu caminhar em trevas internas

Veja a riqueza e beleza das coisas simples e verdadeiras desta vida.

 

Que Omolu cubra de saúde e livre de todas as doenças físicas,

Psicológicas e espirituais os meus adversários

Para que tenham sua vida prolongada sobre a face da Terra

E que possamos nos reconciliar antes de nossa chegada a Orum.

 

Que eu possa adivinhar como o grande senhor Ifá

Tudo o que me possa trazer malefício e desequilíbrio a mim e aos que amo.

 

E nesta jornada terrestre eu falhar ó Yorimá!

Coloque-me de volta a esta Terra para que eu possa refazer a jornada,

Seguindo os conselhos dos Pretos e Brancos Velhos

Em sua sabedoria ancestral, onde eu possa reencontrar o caminho

Na ingenuidade de uma criança rediviva

Quer seja numa aldeia cabocla ou numa favela,

Para que eu possa sentir o amor que Iansã irradia a todas as criaturas.

 

Para que assim eu possa reencontrar-me com o meu Cristo perdido,

Sob as ordens e bandeira de sua cruz redentora.

 

Por Roberto Penides

Tereza da Noite

Desceu a Rua Eliza

Pés descalços

Percatas quebradas

Nas mãos

Década de oitenta

Fim de feira

Resto do dia misturado

Com as sobras de verduras

Na vitrola do bar da

Esquina, Cyndi Lauper

Cantarola uma canção dançante

 

Sua maquiagem derretia

No suor do orvalho da

Noite

Foi andando pela calçada

Até chegar no Timbi

Onde trabalharia

No Cabeçudo

 

A noite não estava boa

Três sujeitos mal encarados

Faziam uma festa

Na mesa vinte e dois

Engraçou-se de um deles

Bebeu, comeu, deu a confiança

E um beijo de boca

 

Saiu com ele

Para trás de um galpão

Sexo, neuroses e devaneios

Não quis fazer de tudo

Ele não suportaria outra rejeição

Esganou-a

Nua, com o púbis ao relento

O negrume da noite

Se confundia com o brilho de sua pele

Que foi lentamente esfriando

Até virar pedra

Não saiu nos principais jornais

Nem em nomes de ruas

Era puta demais.

 

Por Magal Melo

Encontros e despedidas…

Naquela tarde me despedi

Olhando em seus olhos ligeiros

Esperando o carro que me conduziria

Ao lugar costumeiro do meu dia.

E assim a olhei e lhe falei

Do destino e do meu sentimento

De como havia mexido comigo

E perguntei se também havia

Acontecido com ela

Tamanha anomalia.

E sua resposta afirmativa

Assaltou o meu coração,

Mas o seu coração a outro pertence,

Vale mais nesta vida dizer que se gosta

Do que dizer que não se gosta

E receber a palavra de desdém.

Aí da vida coração

Se não fosse às idas e vindas infinitas

Em encontros e reencontros

Que a vida vivifica,

Curando feridas e abrindo outras ainda

Em sorrisos e palavras decididas.

Mas na vida uns choram

Enquanto outros sorriem

E as percas se tornam ganhos

E os ganhos em percas

Nas estradas da vida

Pelas mãos estiradas nos caminhos

Que passamos na busca

De acertar o rumo de nosso destino,

Aí da vida coração

Se não fosse às idas e vindas

Em encontros e despedidas

Pelas estradas da vida!

 

Por Roberto Penides

CHUVA, ENCONTROS E ENCANTAMENTOS

Avistei do outro lado um sorriso largo,
Um sorriso emoldurado por uma boca atraente
E confidente de meus lábios solitários.

Coração refeito de esperanças, mas cheios de medos e ânsias.

Avistei os olhos resilientes e brilhantes
Encarando os meus sem se deterem ou desviarem dos meus,
Encantamento surgido entre as palavras e o frio da chuva naquela tarde.

Coração calado, ouvindo gotas de chuvas frias e a voz da bela dama.

Avistei e fui visto, enlaçado, algemado
Em seus lábios e braços quentes e desejosos de mim,
Não me detive e arrastei-me nesta trama que o destino me arredou.

Por Roberto Penides

A DOR, O AMOR ROMÂNTICO E A FELICIDADE

Se me ferem os sentimentos e o coração combalido,
Resta-me a companhia das lágrimas quentes em meu rosto,
Mas estas secam e me deixam na companhia
Do meu rarefeito sorriso.

Chorar e sorrir fazem parte
Da eterna arte do amor
E quem vive no passado
Não possui presente e nem terá futuro.

Resistir neste orbe de dores e lágrimas
Sem tê-las por companhia é praticamente improvável,
Mas sorrir com as lágrimas secas é uma dádiva
Pra quem acredita e se esforça pelo bem dos que o cercam.

Afinal sorrisos e lágrimas são diamantes preciosos
Nas mãos daqueles que aprendem a perdoar
E seguem e deixam seguir cada pessoa que encontra no seu caminho
Sem ódios, mágoas e rancores.

Viver como se fosse o último dia,
Amar como se fosse a última vez.

Chorar apenas de felicidade,
Mas se a tristeza bater a porta do teu coração
Abra um sorriso e mostre a si mesmo e ao mundo
Que você se entristece, mas não sofre.

Viva e deixe viver,
Semeie o amor em suas ações
E encontre aquilo o que mais desejas:

A felicidade acima das dores nos amores semeados e colhidos no caminho.

Por Roberto Penides