Artista da Vez: Jatiassi Danillo

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O Artista da Vez é uma coluna do Blog Camaragibe da Vez que tem como intento divulgar os artistas de nossa região, seus trabalhos e sua trajetória, para que nossos leitores conheçam, acompanhem seu trabalho, os respeitem e os admirem cada vez mais. Conversaremos agora com Danillo Jatiassi ou Obá Púrpura (Obá = rei em yorubá), como também gosta de ser chamado. Cantor e compositor, jovem muito atuante na vida cultural de nossa cidade.

Camaragibe dá Vez: Na arte, de modo geral, o que você faz? Ou como você se define enquanto artista?

Danillo Jatiassi: Primeiro fico grato pelo convite para estar concedendo essa entrevista e parabenizo este veiculo que amplia nossa visibilidade como artista. Eu sou artista na essência de artista, já fiz teatro, dança, comunicação para rádio, dirigi programa de TV. Mas, hoje eu sou interprete, compositor e credito isso ao amor e dedicação que tenho na musica que é um meio divino de chegar às pessoas.

C.D.V. :  Quantos anos você tem e onde você nasceu?

D. : Tenho 26 anos de idade. Na mente, ainda sou um adolescente, pela rebeldia e uma criança no coração. Nasci em Recife, mas tudo que fiz de mais importante foi em Camaragibe.

C.D.V. :  Como você começou a sua vida na arte?

D. : Em minha vida comecei como artista porque me levavam para o teatro desde pequeno. Minha mãe atriz, um tio ator, os amigos dele eram, eu observava tudo aquilo com olhar grandioso, aquele que só as crianças possuem. Meu tio, Chiquinho Honorato, deu o estalo para me colocar numa abertura de uma peça de Joacy de Castro chamada Zé da Silva. Era sobre a temática do assalariado. Aos sete anos eu abria um espetáculo para duas mil pessoas na Universidade Rural, ao lado de minha mãe, Ilma de Oliveira e meu tio. Amei os aplausos, os elogios e na verdade, sinto que foi desperto uma pessoa que era um leão que estava escondido. Segui daqui ao teatro e aos poucos fui projetando por instinto outras artes. Sempre foi o instinto que me fez intuitivamente seguir. Tenho fé na vida e na arte é preciso sempre de três coisas. O amor, a fé e um leão querendo rugir o tempo inteiro.

C.D.V.:  Lembro muito bem. Era o Grupo Cultural Caráter Público. Onde também participei com Chiquinho e Ilma. Seu tio e sua mãe, respectivamente.

D.: Isso, você foi uma das pessoas que eu vi. Observei. Apesar de ser de pouca comunicação ainda. Mas, recordo que para os grupos artísticos não existiam editais e era tudo muito difícil para vocês ou, posso dizer, nós, porque eu também estava lá.

C.D.V.:  Danillo, você já participou de quais grupos ou bandas?

D. : Quanto as minhas participações, foram em grupos demais. Vou lembrar alguns pontuais. Grupo Caráter Público, como você, Magal. Em sequência, Os Nativos da Dança, Crianças Sem Limites. Trabalhei com moda o grupo Atitude Jovem por quatro anos. Fiz alguns programas na Rádio Camará FM. Na Rede Nova Nordeste. No Afoxé Olorun Aiyê, Banda Flutuar, Banda Exata. Fui do Viver a Cena em Recife. Acabei aqui de novo e daí acho que me minha melhor forma de me reencontrar foi no Grupo Afrogibe. Peço desculpas se não lembrei de alguns. Mas, é porque foram de fato muitos. Alguém ainda vive tentando se encontrar por aí. rsrsr.

C.D.V.:   Qual o trabalho que estás realizando atualmente?

D. : Meu maior tesouro atualmente chama-se Afrogibe. Sou vocalista. Temos uma química e estamos namorando há um tempo, rsrsr. Acredite, é uma paixão e eu tenho uma conclusão. São três anos tão telúricos que me ampliam o ser, o estar bem. Tem sido a menina dos meus olhos.

C.D.V.:   Fale-me mais do Afrogibe. O que é? Como começou? Por onde se apresenta?

D. : O Afrogibe surgiu do amor ao Samba-reggae, do amor e da liberdade dos tambores. Hoje dirigido por Joselito (presidente Jó), Tiago o vice, Felipe, Darling , Marcio e Lili. São pessoas que foram do Afro Camarás, viveram a efervescência , a luta e acredito que somos remanescentes disso. O que ainda amplia essa historia é exatamente quando o nosso primeiro vocalista foi o eterno Paulinho do Afro, antigo vocalista do Afro-Camarás, junto a Mirtes. Não posso mentir, não estive nesta construção, mas, sei da importância que teve. Paulinho esteve doente e precisavam de alguém para comungar com Mirtes no repertório. Eu tinha acabado de sair do Olorun que tinha sido encerrado o projeto por questões de agenda e acabei sendo convidado a um ensaio. Óbvio que me apaixonei pelo som do tambor que tem em mim as evocações de toda minha ancestralidade e que conta a historia de uma fé. O Afrogibe trata-se claramente de um grupo que não esqueceu como dizer que nossas raízes são extremamente amplas e célebres.

Os nossos ensaios hoje são abertos para ampliar a liberdade de quem quiser ser ou estar percussionista, pois, existe um projeto de oficina de percussão. A agenda é crescente e em cantos diversos, mas ainda sei que temos um longo caminho e também nos divulgamos em sambadas. Temos trabalhos ligados às escolas que ampliam o compromisso de manter o papel da busca da equidade racial e outras vertentes de debate desta era tão peçonhenta em tantos quesitos.

Os mestres Felipe e Márcio dão uma condução com liberdade artística onde sinto que podemos ter uma ampla visão pop e erudita do tambor. Afrogibe é um grito de socorro de nossos artistas para que se agrupe, se promovam, se ajudem. Mas, sobretudo sobrevivam para deixar para as próximas gerações espetáculos memoráveis. Nossos ensaios tem sido na Praça da Coimbral, aos sábados, onde aproveitamos a demanda (de arte, lazer, diversão?) e nos agrupamos a outros tantos movimentos e mobilizações libertárias.

C.D.V. :  Quais as maiores dificuldades enfrentadas?

D. : As de qualquer grupo cultural. Apoio estrutural, questões relativas ao reconhecimento dos poderes públicos. Eu tenho uma visão pessoal que o que nos limita artisticamente é justamente as pessoas acharem que artista é vagabundo e não precisa comer ou mesmo que é lindo. Mas, não é favorável como extensão para servir de projeto social e de ponte para transformação. Temos um bloco que sai anualmente que critica as formas como se vê como anarquistas, os movimentos sociais, mobilizadores, artistas e por fim, contra isso, homenageamos e celebramos as diferenças.

Nós sempre pensamos muito a frente e questionamos muitas vezes ser ruim ou não como entidade, o Centro de Cultura Afrogibe estar presente em diversas discussões públicas e culturais.  O que queremos é descaracterizar que nós somos apenas do carnaval. Somos da cultura e vibramos o ano inteiro.

C.D.V. :  Eu vi vocês se apresentando na Coimbral e confesso que fiquei extasiado com tanta energia. Ou melhor na Coimbral não, na Praça Francisco Honorato, que leva o nome do seu avô. Achei de uma criatividade utilizar aquele espaço para fins culturais.

D. : Isso é muito bom lembrar. Vovô era um político muito respeitado que acreditava na política cultural. É um sentimento amoroso imensurável estar ensaiando naquela praça com o nome dele.

C.D.V. :  Primeiro, porque seu avô foi reconhecido pelo Governo Federal como uma vítima da ditadura. Político este que além de tudo lutou pela criação do Município de Camaragibe. Além do que aquele local foi palco de memoráveis carnavais, festas juninas, apresentações musicais, e, atualmente está um pouco esquecido e ocioso. Creio que com o apoio da sociedade ali daria para ser um grande ponto cultural. Com mais luz, melhor som, outras iniciativas concomitantes. Sem falar que o local já dispõe de um aparato de lazer como quadra, bares e outras lojas.

D. : Sim, temos essa ligação histórica. Meu avô foi emancipador do município e um homem incrível. Sinto muito medo. Pois é uma carga muito grande criar uma história sem ter que citar a dele e ainda sim prevalecer. As pessoas que o conheceram falam com os olhos marejados sobre ele. Eu não o conheci, mas conheci-o pelo os olhos dos outros, e ainda sim, o amo muito.

C.D.V. :  Ouvi falar muito bem dele, de várias pessoas inclusive da boca de Minha bisavó, Dona Iaiá. Quais as expectativas com o novo governo municipal no campo da cultura?

D. : Não vejo a cultura dentro da política como bem vista. Somos escravos de nomes que não nos representam. A última gestão errou muito ou deu pouco cartaz a nomes como Anderson Neves. E tiveram que corrigir isso com a figura espetacular de Uel Silva que deixou um legado e esse sim teve mais liberdade.

Todavia, acredito que foi o acerto feito com o ex-prefeito. Tenho medo de uma coisa, não dos nomes da atual Fundação. Porque existem nomes excelentes e trabalhei outras prespectivas na área cultural com alguns quando era modelo e produtor de eventos, portanto o meu grande receio é que não se repita o mesmo que aconteceu com o Anderson. Tenho muito medo da falta de visão do atual gestor e não da Fundação. Porque esse tem nome para trabalhar. Mas, se não tiverem liberdade para construir com a população vai ser mais crítico do que em outras gestões. Espero que os mesmos entendam que não existe nenhuma resistência de minha parte. Mas, vi pouca evolução nos sentidos sociais da política cultural e quero deixar claro que essa é uma opinião só minha e não do Afrogibe. Tem sido muito crítico o que tenho visto. Pouca ordem na nossa pasta e nós como articuladores culturais só servimos para momentos eleitorais de dois em dois anos e isso é caótico. Espero que dê super certo porque Camaragibe precisa reconhecer nossos valores. Minha gente clama por isso e eu também.

C.D.V. :  Hoje observo que o Conselho de Cultura, que por sinal ajudei a criar o primeiro, está bastante fortalecido. Creio que isso vai dar uma ótima contribuição. Mas, voltando à musicalidade, quais são as maiores influências da banda?

D. : As influências são as dos tradicionais grupos: Olodum, Timbalada, Afro Camarás, e vejo muito forte neles também a Nação Zumbi. Enfim, eles hoje vivenciam isso de uma maneira muito ampla. Eu sempre fui pop. Curto Anita, Zélia Duncan, Baker and Zedd. Eu me sinto livre. Eu me permito escutar até o que não gosto para fazer uma avaliação. Mas, no meu tempo e da minha forma, óbvio. Inspiro-me em artista que ninguém me relacionaria com eles como o Prince e o Jorge Vercillo, Bethânia e Madonna. Não consigo deixar de ser um camaleão. Pois, gosto de vestir, cantar e dizer sobre minha liberdade de inspiração. Ando escutando muito o Phill Veras, Albino Baru, daqui de Camaragibe, e por fim, digo que voltei para a Baby do Brasil que influenciou esse carnaval do nosso Afrogibe. Minhas experiências escutando reflete muito em nossas apresentações, graças à liberdade que os meninos me dão. No nosso show rola hoje de Nação Zumbi, Clara Nunes, Anitta, Ludmilla e Daniella Mercury. Tá bom. Quer mais? Isso é a prova de que somos diversos.

C.D.V. :  Sobre o desfile do Carnaval, já tem dia? Como o povo poderá participar?

D. : A data não foi definida ainda. É sempre mais em cima que eles resolvem. Repassarei para o blog. Faço ainda um convite para o que acontece antes do nosso desfile. Que é todo sábado à noite na praça que também é de onde esse ano sairá, na Praça Francisco Honorato, popularmente chamada por Coimbral. Temos um tema que é contemplar Camaragibe. Nosso Tema é: “Afrogibe e todas as suas formas telúricas”.

C.D.V. :  Que mensagem você deixa para quem está querendo começar uma carreira musical?

D. : Não busque apenas o dinheiro. A arte é para sempre. Saiba que o dinheiro vem com esforço e às vezes por outro meio. Nossos artistas tem que ser uma ponte para reflexão social, existencial e pública. Somos elos com o divino o tempo inteiro. Pois, tocamos o outro através da emoção. Não devemos desistir. Não é fácil e se reinventar faz parte do esquema seja ele qual for. Artista tem que ser reflexo do seu público direto. Qual o seu e qual quer ter daqui a alguns anos? Que as forças do universo providenciem boas vibrações astrais para nós.

C.D.V. : Obrigado, Danillo, a equipe do Camaragibe dá Vez agradece.

* * * Entrevistado por Magal Melo, representando o Blog Camaragibe dá Vez, via facebook

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